Última atualização em 15/05/2016

Um estudo feito há décadas, redescoberto, desafia as recomendações acerca da gordura saturada


mulher comendo chocolate

A guerra contra a gordura saturada teve uma grande derrota no último mês.

Traduzi esse artigo do New York Times que mostra, novamente, como fomos enganados nas últimas décadas sobre quais alimentos fazem mal para a nossa saúde.

O texto foi escrito por Anahad O'Connor e publicado dia 13 de abril. O original encontra-se neste link.

Segue o artigo:

Um estudo de quatro décadas - recentemente descoberto em um porão empoeirado - levantou novas questões sobre antigas diretrizes nutricionais e os perigos da gordura saturada na dieta americana.

A pesquisa, conhecida como Minnesota Coronary Experiment (em tradução livre, “Experimento Coronário de Minnesota”) foi um grande ensaio clínico controlado realizado entre 1968 e 1973, que estudou as dietas de mais de 9.000 pessoas em hospitais psiquiátricos e uma casa de repouso.

Durante o estudo, pago pelo National Heart, Lung and Blood Institute (Instituto Nacional do Coração, Pulmões e Sangue) e conduzido pelo Dr. Ivan Frantz Jr., da University of Minnesota Medical School (Universidade Médica de Minnesota), os pesquisadores foram capazes de regular minuciosamente as dietas feitas pelos participantes.

Metade desses indivíduos foram alimentados com refeições ricas em gorduras saturadas do leite, queijo e carne. O outro grupo recebeu uma dieta em que a maior parte da gordura saturada foi removida e substituída por óleo de milho, uma gordura insaturada comum hoje em dia em muitos alimentos processados.

O estudo foi feito para mostrar que a substituição da gordura saturada por gordura poliinsaturada de óleos vegetais nas dietas das pessoas iria protegê-las contra doenças cardíacas e diminuir a sua mortalidade.

Então, qual foi o resultado? Apesar de ser um dos maiores ensaios clínicos controlados já realizados, os dados nunca foram totalmente analisados.

Há muitos anos, Christopher E. Ramsden, um pesquisador médico do National Institutes of Health (Instituto Nacional de Saúde) soube do estudo que havia sido esquecido.

Intrigado, ele contatou a Universidade de Minnesota, na esperança de rever os dados não publicados. Dr. Frantz, que morreu em 2009, tinha sido um notável cientista da Universidade, que estudou a ligação entre gordura saturada e doenças cardíacas.

Um de seus colegas mais próximos foi Ancel Keys, um influente cientista cuja pesquisa na década de 1950 ajudou a estabelecer a gordura saturada como inimiga número um da saúde pública, o que levou o governo federal a recomendar dietas de baixa gordura para toda a nação.

"Meu pai acreditava piamente na redução de gorduras saturadas [na dieta], e eu cresci assim", disse o Dr. Robert Frantz, filho do pesquisador chefe e cardiologista da Clínica Mayo. "Nós seguíamos uma dieta de um teor relativamente baixo de gordura em casa, e aos domingos ou ocasiões especiais, comíamos bacon e ovos."

O jovem Dr. Frantz fez três viagens à casa da família, finalmente descobrindo a caixa empoeirada etiquetada como "Minnesota Coronary Experiment" no porão da casa de seu pai. Ele a entregou ao Dr. Ramsden para análise.

Os resultados foram surpreendentes. Os participantes que ingeriram uma dieta baixa em gordura saturada e enriquecida com óleo de milho reduziram seu colesterol em uma média de 14%, em comparação com uma mudança de apenas 1% no grupo de controle.

No entanto, a dieta de baixa gordura saturada não reduziu a mortalidade. Na verdade, o estudo revelou que quanto maior a queda no colesterol, maior o risco de morte durante o estudo.

As descobertas contrariam as recomendações dietéticas convencionais que aconselham uma dieta baixa em gordura saturada para diminuir o risco cardíaco. Orientações dietéticas atuais sugerem que os americanos substituam a gordura saturada (o que tende a aumentar o colesterol) por óleos vegetais e de outras gorduras poliinsaturadas (que diminuem o colesterol).

Enquanto ainda não está claro por que os dados do estudo não foram completamente analisados, a possibilidade levantada é que o Dr. Frantz e seus colegas enfrentaram a resistência dos periódicos médicos na época em que questionar a ligação entre gordura saturada e doença era uma atitude profundamente impopular.

"Pode ser que eles tenham tentado publicar todos os resultados, mas encontraram dificuldades nisso", disse Daisy Zamora, um dos autores do novo estudo e pesquisador da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

O jovem Dr. Frantz disse que seu pai provavelmente estava assustado com a aparente falta de benefícios na substituição de gordura saturada por óleo vegetal.

"Quando descobriu-se que ele [o óleo] não reduz o risco, foi bastante intrigante", disse ele. "E levando em conta que ele que foi eficaz na redução do colesterol, aí foi estranho."

A nova análise, publicada na terça-feira na revista BMJ, provocou respostas afiadas dos principais especialistas em nutrição, que disseram que o estudo foi falho. Walter Willett, presidente do departamento de nutrição da Harvard T.H. Chan School of Public Health (faculdade de saúde pública de Harvard), descreveu a pesquisa como "irrelevante para as recomendações dietéticas atuais" que enfatizam a substituição de gordura saturada por gordura poliinsaturada.

Frank Hu, um especialista em nutrição que trabalhou no comitê de orientações dietéticas de 2015 do governo, disse que o experimento Minnesota não foi feito em um tempo suficientemente longo para mostrar os benefícios cardiovasculares do consumo de óleo vegetal porque os pacientes, em média, foram acompanhados por apenas cerca de 15 meses.

Ele chamou a atenção para uma grande meta-análise feita em 2010 que descobriu que as pessoas tiveram menos ataques cardíacos quando aumentaram a ingestão de óleos vegetais e de outras gorduras poliinsaturadas em quatro anos, pelo menos.

"Eu não acho que as conclusões dos autores são sustentadas pelos dados", disse ele.

Para investigar se as novas descobertas foram uma casualidade, Dr. Zamora e seus colegas analisaram quatro rigorosos ensaios similares que testaram os efeitos da substituição de gordura saturada por óleos vegetais ricos em ácido linoleico. Aqueles, também, não mostraram qualquer redução na mortalidade por doença cardíaca.

"Seria de esperar que quanto mais você reduziu o colesterol, melhor o resultado", disse o Dr. Ramsden. "Mas, neste caso, foi encontrada a associação oposta. O maior grau de redução do colesterol foi associada a um maior, em vez de um menor, risco de morte. "

Uma explicação para essa descoberta surpreendente pode ser o alto nível de ácidos graxos ômega-6 encontrados nos óleos de milho, soja, algodão e girassol.

Enquanto os maiores especialistas da nutrição apontam para numerosas evidências de que cozinhar com esses óleos vegetais em vez de manteiga melhora o colesterol e previne doenças cardíacas, outros argumentam que os níveis elevados de ômega-6 podem promover simultaneamente a inflamação. Esta inflamação pode superar os benefícios da redução do colesterol, dizem.

Em 2013, Dr. Ramsden e seus colegas publicaram um artigo polêmico sobre um grande ensaio clínico que havia sido realizado na Austrália na década de 1960, mas nunca tinha sido completamente analisado. O estudo descobriu que os homens que substituíram a gordura saturada com gorduras poliinsaturadas ricas em ômega-6 diminuíram seu colesterol. Mas eles também eram mais propensos a morrer de ataque cardíaco do que o grupo de controle de homens que comiam mais gordura saturada.

Ron Krauss, o ex-presidente do comitê de diretrizes alimentares do American Heart Association (Assoiação Ameriana do Coração), disse que a nova pesquisa foi intrigante. Mas ele disse também que havia um vasto número de pesquisas que mostram que gorduras poliinsaturadas são saudáveis para o coração, e que a relação entre a redução do colesterol e mortalidade poderia ser enganadora.

As pessoas que têm níveis elevados de colesterol LDL, o chamado mau colesterol, normalmente têm maiores quedas nos níveis de colesterol total em resposta a mudanças na dieta em comparação às pessoas com menor LDL. Talvez as pessoas que tiveram a maior queda nos níveis de colesterol no novo estudo também tiveram as maiores taxas de mortalidade porque elas já tinham uma doença subjacente.

"É possível que a maior mudança nos níveis de colesterol estava em pessoas que tinham mais risco vascular relacionado com os seus níveis de colesterol mais elevados", disse ele.

Dr. Ramsden salientou que as conclusões da equipe devem ser interpretadas com cautela. A pesquisa não mostra que as gorduras saturadas são benéficas, ele disse: “Mas talvez elas não sejam tão ruins quanto as pessoas pensavam."

A pesquisa ressalta que a ciência por trás da gordura na dieta pode ser mais complexa do que as recomendações nutricionais sugerem. O corpo precisa de gorduras ômega-6 como o ácido linoleico em pequenas quantidades. No entanto, novas pesquisas sugerem que, em excesso, o ácido linoleico pode contribuir para uma variedade de distúrbios, incluindo doenças hepáticas e dor crônica.

Um século atrás, era comum para os americanos obter cerca de 2 por cento de suas calorias diárias de ácido linoleico. Hoje, os americanos consomem em média mais que o triplo dessa quantidade, em grande parte originária de alimentos processados, como carnes embutidas, molhos para saladas, sobremesas, pizzas, batatas fritas e snacks como salgadinhos. Fontes mais naturais de gorduras como o azeite, a manteiga e gemas de ovos também contêm ácido linoleico, mas em quantidades menores.

Comer alimentos e plantas saudáveis e não processados pode ser uma maneira de obter todo o ácido linoleico que seu corpo necessita, disse o Dr. Ramsden.

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